Carta 08 - O caixão - O Eu pode e deve se reinventar - Por Augusto Cury

Autor: Augusto Cury
Livro: Pais inteligentes formam sucessores, não herdeiros. 
Editora: Saraiva.

"Com palavras inteligentes, os pais transformam cada momento num espetáculo solene. com um amor maduro, os pais transformam cada minuto numa eternidade. Usando, portanto, suas palavras e seu amor, os pais podem mudar o mundo quando mudam o mundos dos seus filhos"

Temos tendência a encontrar culpados para nossos tropeços, lapsos, insucessos, conflitos ou até para nossa falta de atitude. Desde os primórdios da civilização humana culpamos pais, chefes, mestres, a sociedade, o ambiente e até Deus. Ainda que fenômenos externos tenham contribuído para nossos comportamentos, ninguém é mais responsável por eles do que nós mesmos. Quando crianças podíamos não ter capacidade de decidir; quando adultos, abrir mão dessa capacidade é amordaçar o Eu na masmorra da alienação. 

Não escolhemos nosso pais, mas podemos escolher amá-los e honrá-los apesar de seus defeitos. 
Não escolhemos nossa nação, mas podemos escolher torná-la mais justa e solidária. 
Não escolhemos o meio ambiente, mas podemos escolher torná-lo mais sustentável. 
Não escolhemos o início de nossa educação escolar, mas é possível escolher usar as informações como fonte de arte de pensar. 
Não escolhemos o passado, mas podemos escolher o futuro.

...Em qualquer momento podemos construir uma nova agenda, deixar de ser espectadores para ser protagonistas da nossa história. 
Nosso Eu, que representa a capacidade de escolha, pode e deve se reinventar. Essa é uma das mais importantes características dos sucessores. 

Quem se reinventa reclama pouco e age muito. 
Quem se reinventa atribui menos carga aos outros e assume mais as responsabilidades. 
Quem se reinventa usa muito menos as mãos para punir e muito mais o cérebro para superar. 

Os herdeiros, ao contrário, anestesiam os papéis nobres do Eu. Quem não se reinventa não revê o que é, onde está, nem aonde quer chegar. Quem não se reinventa é um barco sem leme, sem bússola. É empurrado pela vida, e não o condutor dela. Filhos que culpam os pais por seu próprio vício em drogas, pelos fracassos profissionais e pelas mazelas da emoção retiram seu Eu da posição de piloto da aeronave mental e colocam-no como um passivo passageiro. Você pilota sua mente ou é pilotado por ela?

Sucessores sabem que o destino frequentemente não é inevitável, e sim uma questão de escolhas. Herdeiros acreditam que o destino não é responsabilidade deles. Sucessores constroem seus caminhos. Herdeiros escondem-se atrás da débil crença na sorte e no azar. Não sabem que sorte é o casamento da oportunidade com a capacidade de agir. Não sabem que a sorte acorda às 6 da manhã. 
Sucessores sabem que todas as escolhas implicam em perdas. Têm consciência de que, para alcançar os patamares mais nobres da saúde emocional e da excelência profissional, têm de abandonar o conformismo. Os herdeiros creem que suas escolhas só trazem ganhos. Desconhecem que, para conquistar pessoas, têm de perder sua arrogância e seus pré-julgamentos, têm de reciclar sua autossuficiência e o  medo de cair no ridículo; para conquistar habilidades profissionais e sociais, têm que remover sua preguiça mental e sua alienação. Perder nos torna  mais leves. Quem não aprende a perder nunca sairá da masmorra da mesmice. E milhões, mesmo sem terem consciência, estão encarcerados. Estamos entre eles?


Nota: Eu prefiro ser uma sucessora, onde me reinvento a cada instante, aprendo com os exemplos dos outros e com os meus próprios deslizes. Me recuso a ser uma herdeira que não constrói, e que não se reinventa. Qual é a sua escolha?