Carta 24 - O amor - por Leo Jaime

Autor..: Leo Jaime
Livro..: Cabeça de homem
Editora: Agir

Sem perder a ternura

O amor é aquilo que fica escondido no vão dos dias, atrás da fumaça escura do cinismo. O amor é o antídoto. A sua expressão física, o beijo, o gozo, é a cura. 

Como você trata aqueles que ama? Qual seu estado emocional basal? Em casa, com amigos, com familiares, no mundo onde a formalidade fica pendurada no cabide, como é que se porta? Quer extravasar todas as tensões do dia em que você tem afeto garantido? Já reparou que irmãos treinam a agressividade uns com os outros? Até filhotinhos de cão ou gato fazem isso! Treinar em casa o rugido que será dado no mundo é normal - e olha que esse rugido é, por vezes, dado só em casa mesmo. 

Falo da construção do bem-estar, da solidez dos laços amorosos e afetivos, da graça que pode envolver os dias. Há que se trabalhar para que tais coisas deixem de ser ideias para virarem rotina. É possível evitar que as notícias ruins ganhem atenção imediata, enquanto os prazeres são todos postergados. 

O nosso olhar pode ver o mundo que quiser, mesmo sem fantasiar nada. É o olhar que vai perceber a beleza de uma flor e registrar a peculiaridade de ela ter nascido no concreto. Sentir a beleza, guardar em saber, isso é o esforço dos segundos, dos minutos, das horas, da vida. 

Vivemos em um mundo que gasta trezentas vezes mais com armamento bélico do que em educação. Neste mundo cruel, o amor é a revolução e estamos precisando de soldados

Dito isso, parece que estou convocando todos para o mundo do idílio amoroso, da alienação vertiginosa da paixão, da epifania dos prazeres do corpo levado às últimas consequências.  Não é isso. Nem tampouco faço uma elegia ao hedonismo. A gentileza e a ternura são o alvo dos meus pensamentos. Educação é uma palavra fundamental, mas pode ser gelada. 

Claro que a vertigem amorosa é uma meta. Todos deveriam experimentá-la. Mas o amor com sabor de fruta mordida, esse é o amor tranquilo. O amor por nós, por nossa vida, por quem queremos bem e por perto. Expressar isso nos detalhes pode prescindir de cenas espetaculares. 

Os dias são a vida. Os dias são os momentos - eles é que importam. Viver cada um deles de modo coerente com nossas prioridades e anseios é a questão. Ou estamos avançando ou nos afastando dos nosso ideais. Em cada gesto, em cada palavra dita ou deixada por dizer.


Nota de Tânia Durão: quero me alistar nesse exército para me tornar um soldado do amor. Sustento o meu amor próprio. Quero continuar sendo uma pessoa gentil, que distribui afeto, mesmo nos dias de aridez. Ainda bem que Leo Jaime pensa como eu.