Carta 26 - O Livro - Por Clarissa Guelves

Havia um livro fechado na estante. Sua capa bonita, detalhada, brilhante e convidativa, exercia sobre mim uma influência deliciosa. Todos os dias eu o acarinhava, folheava suas páginas, sentia seu cheiro de livro recém-chegado e me despedia prometendo: logo chegará a sua vez.
Os amigos perguntavam: “e aí? Gostou do livro?” Outros me alertavam: “leia com cuidado... o mistério que há no livro pode lhe assustar”; outros ainda diziam “Tanto tempo depois? Melhor esquecer!”. Comentários, críticas, indicações... Muitas vezes conversas intensas e animadas sobre o tal livro não lido seguiam por madrugadas sem fim.
O carinho crescia pelo livro, a medida que a demora para descobri-lo aumentava. Eram outros livros, outras páginas, outras histórias e outras pessoas. Era a falta de tempo, de senso, de memória. Tudo que me afastava do bendito livro, me fazia ansiar por deleitar-me em seus segredos ainda mais.
Quando o retirava da estante, era capaz de ouvir seu suspiro, sua espera. Se é possível dizer que livros têm corações, o tal coração parava ao sentir meu toque. Como se ficasse em suspenso, em espera. Posso lhe abrir? A resposta era um sim tímido, mas sempre entregue.
Entretanto, o tal feitiço de impedimento se fazia valer: o telefone tocava, alguém chamava ao portão, o mundo lá fora exigia minha presença e atenção de forma inadiável. E o livro, pesado de mágoa, voltava ao seu lugar de costume.
Fui me acanhando a cada dia mais, nunca fui de quebrar promessas, mas como era difícil cumprir a promessa de ler o livro fechado. Envergonhado, preferi retirar o livro da estante e guardá-lo numa gaveta.
Naquela noite, sonhos estranhos perturbaram-me, era como se ouvisse um choro baixinho, ao longe. Sem querer me considerar louco, deixei essas ideias de lado, e fiz questão de esquecê-lo: como poderia um livro chorar? Evitei o assunto com amigos, mudei o rumo da prosa quando foi preciso, e inexoravelmente, a vida seguiu.
Muito tempo depois, uma mudança de casa e o empacotamento de toda a biblioteca me fez procurar por aquele exemplar novamente. Era uma questão de honra, leria o livro naquela tarde. Não havia mais linha telefônica, computadores, e mesmo os bons amigos estariam no trabalho aquele horário.
Sentei-me em frente à gaveta, abri com todo cuidado, tateei em busca do livro e surpreso, encontrei apenas uma página. Era a dedicatória conhecida, arrancada sem nenhum cuidado: "Para um homem cronicamente apaixonado pelas letras, especialmente as vogais."
O livro não estava mais lá.
Nem seu cheiro.
Nem sua entrega.
Nem seus suspiros, ou suas lágrimas.
No verso da folha, letras de forma borradas e quase ilegíveis diziam: "E que infelizmente nunca teve coragem de descobrir o que elas realmente significavam."
Isto aconteceu anos atrás, em minha mocidade, hoje enquanto a velhice faz de meu corpo sua morada definitiva e minha visão já não me permite novas aventuras literárias, vasculho minhas memórias para lembrar do livro fechado, perdido, que partiu por não ter encontrado em mim aquilo que precisava. E o que ele me pedia era tão pouco...
...Que histórias teria me contado? Que segredos seriam revelados? Seria clichê? Cansativo? Chato? Eu me veria em suas páginas ou me depararia com algo inteiramente novo e impressionante?
Eu não sei. Não tive coragem...
Autoria: Clarissa Guelves
Foto: Desconheço (se alguém souber, informe para o devido crédito)