Carta 10 - A Foice - Por Tânia Durão

A foice é o instrumento utilizado pelos camponeses para cortar, romper, separar, ajustar e limpar o terreno. Cada ser humano é o seu próprio camponês, nos trigais da vida.

Gosto de pensar na foice como o momento de decisão: De + Cisão. 
A própria palavra já sugere e já impulsiona a um rompimento. É comum as pessoas associarem uma escolha a uma perda. Porque não associam aos ganhos?? É preciso arar a terra para novos plantios. Pense nisso.

É possível fazer ajustes sim, sempre são bem vindos, antes de uma de+cisão final, dar uma última chance, expressar o que incomoda, através de um diálogo, propor mudanças de comportamento, através de um prazo escolhido...em comum acordo. 

Parar ou continuar? Estar ou não estar? Eis a questão! Isto implica em escolher o que serve e o que não serve mais em um determinado momento, é a famosa separação do joio e do trigo. É preciso soltar as amarras que prendem e que fazem sofrer para assumir o risco de ser feliz.

Quando não se acaba com uma situação, a vida vem e acaba...


Sei que não é fácil tomar a decisão (de + cisão=corte) de romper com alguma situação que até então era estruturada. Como não é fácil abrir mão do papel secundário de vítima para assumir o papel principal de líder...é aqui que a foice entra. 


Desistir de uma relação, de um emprego ou profissão, de um namoro, de uma amizade ou de um ideal, às vezes, é a melhor escolha a se fazer. Não digo que seja fácil, porque não é mesmo, mas digo que é possível...é necessário e é salutar.

Lembro das vezes que precisei usar a foice na minha vida:

- Foi difícil sair da casa da minha mãe para morar sozinha, tive medo de não conseguir pagar as contas. Hoje, 13 anos depois, digo que valeu a pena correr o risco e vencer. 

- Foi difícil terminar um namoro, onde havia muita diversão, muita alegria e muita viagem, eu me sentia cuidada...e sufocada. 

- Levei 3 longos anos (sofridos, é claro) para mudar de profissão de técnica senior em uma seguradora multinacional para terapeuta holística. De salário fixo (e benefícios) para ser autônoma, do conhecido (confortável) para o desconhecido (assustador). Desta vez a foice veio ao meu encontro e fui demitida (que alívio!). Foi justamente esta demissão que me impulsionou a mudança de profissão. Senti medo, mas digo que foi a decisão mais sábia que fiz em toda a minha vida, e, mesmo com medo, fui em busca do meu ideal. Hoje me sinto realizada profissionalmente.

- Foi difícil abrir mão de algumas relações, onde não havia troca e que não me acrescentavam em nada. Me afastar foi a melhor escolha.

O budismo ensina, com muita propriedade, sobre a impermanência de tudo, nada dura para sempre, a mudança é a única coisa que realmente não muda na vida. 

Outro ensinamento é o desapego, deve-se amar sim, a tudo e a todos, mas sem apego. 

Deve-se abandonar da ilusão do Eu sou, para assimilar o Eu estou. Em outras palavras, eu não sou a presidenta da uma empresa, mas estou a presidenta da empresa, no momento presente. Até quando? não sei! O Eu estou serve para tudo na vida, principalmente nos relacionamentos. 

Sempre digo que a foice também limpa o terreno, onde pode-se caminhar com mais facilidade e mais beleza. Outro aspecto da foice é a superação de uma experiência ruim, superação de uma dificuldade, superação de uma doença, de uma separação ou de uma perda, seja ela qual for. 

A natureza é baseada em ciclos e os ciclos...um dia acabam...isso não é culpa de ninguém. Perde-se muito tempo e energia - ganha-se muito sofrimento - procurando um culpado para tudo, assim fica difícil assumir a parcela de responsabilidade que cabe a cada envolvido na questão e fica difícil amadurecer, por permanecer apegado a uma situação sofrida por medo do desconhecido. Liberte-se do sofrimento.

Considero positivo o esforço de abrir mão do sofrimento para escolher o aprendizado que as experiências trazem. Esta é a melhor de+cisão que alguém pode tomar.  

Costumo dizer que existe vida fora da empresa para qual você trabalha, existe outras formas de relacionamento, além dos que você conheceu até hoje. Existem outras maneiras de se comportar, existe outras pessoas aguardando a sua atenção e sempre há uma chance para um novo começo.






Como um bom camponês, use a sua foice quando for preciso, faça os ajustes necessários, com coragem. Abandone o desanimo. Você é capaz de superar todos os problemas.

Você vai se surpreender com o resultado, pois o seu terreno estará sempre fértil para novos plantios e novas colheitas.