Eu aprendi a ler cartas. E agora? - por Kêu Salvador

Fonte: www.acartabranca.blogspot.com

Eu aprendi a ler cartas. E agora?


O desafio do ser Eu versus Eu cartomante!
Muitas pessoas buscam respostas para seus anseios, ou saídas para seus problemas, e o fato é que, de certo modo, todo mundo algum dia na vida procura algum tipo de oráculo para se consultar. Particularmente falando, eu jamais imaginei que dominaria qualquer tipo de oráculo.
O tempo passou, e através da mãe de uma amiga minha, conheci o Le Petit Lenormand, ou Baralho Cigano, como é mais conhecido. Quando encarei de frente a possibilidade de ser cartomante, eu não sabia ao certo o que “era isso”, e tudo que eu sabia era apenas um conceito pré-estabelecido da palavra: Eu ia ser alguém que abre cartas, e sabe-se lá como, consegue prever o futuro. Que tolice! Eu não sabia que as cartas não são uma ferramenta para adivinhação, e também não sabia que eu ia aprender a arte de “ler vidas”.
 As mais complexas, as mais monótonas, os maridos, as amantes, os filhos. É fascinante e ao mesmo tempo, aterrorizante, ter que dizer sem melindres a mensagem das cartas! Isso porque as pessoas, na maioria das vezes, esperam ouvir respostas que coincidem com seus anseios, porém, as cartas sempre revelam nada mais do que a verdade, e que, a adivinhação é uma mera “coincidência espiritual”, vamos dizer assim! Enquanto cartomante, busco vivenciar os 36 arcanos de que lanço mão neste momento, atrelando ao meu dia-a-dia, buscando elementos com os quais eu possa fazer alusões com a realidade, embora o próprio design do baralho já faça isso sozinho, devido as figuras que apresenta, como: urso, cobra, raposa, cegonha e outros.
 Em contrapartida, desmistificando a hipótese de que os cartomantes são adivinhos, temos um grande desafio em nossa frente, que é compreender a mensagem simbólica que o baralho apresenta. É um desafio, porque compreender vai muito mais além do que entender! No quesito compreensão, temos que manobrar vários obstáculos. O primeiro deles é a apreensão de ambos, consulente e cartomante. Do consulente, porque ele espera obter respostas, e do cartomante, que espera compreender a mensagem do baralho. E essa compreensão depende de vários fatores, que são eles: domínio do significado de cada carta isoladamente, concentração, intuição, inteligência emocional, e espírito psicólogo*.
Como disse anteriormente, e volto a repetir, cartomancia não é vidência! Não é que vidência não exista, mas, a vidência é um tipo de faculdade mediúnica que independe de oráculos. Médiuns videntes recebem mensagens visuais em qualquer lugar, de qualquer forma ou aspecto, a depender do seu grau de desenvolvimento versus a necessidade do plano superior de passar a mensagem ao destinatário. Se o cartomante tem esse tipo de faculdade, para ele é mais uma vantagem, e ele com certeza poderá fazer interpretações muito mais completas, do que cartomantes que não são médiuns videntes.
Segundo Alan Kardec, a mediunidade em si é uma faculdade, tanto quanto o olfato ou o paladar, que todos os homens encarnados possuem. Acontece que, em alguns, essa faculdade é mais latente. Já para outras ela é adormecida e precisa de acompanhamento para que desperte, assim como nascem pessoas surdas ou mudas, ou seja, nasceram com falta dessas faculdades. Sob essa ótica, todos nós somos médiuns, cheios de possibilidades, intuições, insights, ideias, visões, enfim, cada um vai dá o nome que entre de acordo com sua crença. Com isso, quero dizer que não existe cartomancia sem estudo. Qualquer oráculo exige método, tem conceito próprio, regras de utilização, e por isso, o oraculador precisa ter ciência das técnicas que vai utilizar. O tempo, a utilização e a prática farão com que o cartomante domine o seu baralho em todos os sentidos em nível de conceito, e mesmo assim, sempre se surpreenderá, porque cada carta tem um conceito pré-estabelecido, entretanto, esse conceito varia de acordo com a combinação de cartas que a tiragem vai apresentar, e também, o conceito da história do consulente. Este, por sua vez, precisa entender e isso é papel do cartomante, que o baralho não é uma adivinhação, e que o foco principal não é adivinhar o futuro.
 A função das cartas ou qualquer outro oráculo é transcrever mensagens ‘astrais’, impressas no baralho através da energia do consulente, que pode estar lançada no ar de diversas maneiras, visando o autoconhecimento. Há adivinhação? –Sim! Mas é uma consequência, até porque há um apoio espiritual, que por sua vez tem uma visão macro. Com isso, já que tocamos em assuntos que nunca ouvimos, e possivelmente poderemos descrever as características físicas de alguém que nunca vimos, configura-se uma adivinhação. Mas é uma adivinhação com base na análise combinatória, e não que estejamos vendo o rosto ou o jeito da pessoa através do baralho (exceto nos casos dos médiuns videntes). Viajaremos num mundo de mistérios e enigmas, num campo minado de conclusões ou não, e para isso, nós cartomantes temos uma grande lição para vida, que é o aprendizado constante. Cada dia é um novo dia, e cada jogo é uma possibilidade de aprendizado.
Nós cartomantes devemos abrir mão do perfil: Eu já sei tudo! E vestir a capa da humildade no quesito: Eu ainda tenho muito que aprender! Devemos de início, entender que cada oráculo tem uma forma de ser utilizado e devemos nos ater num primeiro momento a esse método, e depois, quando a prática se tornar constante, desenvolve-se uma forma de adaptação a este método ou quem sabe, novos métodos. Ler cartas é como aprender a mexer em um sistema novo! No começo, você faz exatamente igual como te ensinaram. Com o tempo, de tanto utilizar, você descobre formas novas, mais fáceis, menos complexas, e percebe que, na verdade, o que importa é o produto final estar condizente com a realidade apresentada.
O homem enquanto objeto de estudo
De certa forma, o baralho cigano, o tarô ou qualquer outro tipo de oráculo, permite ao oraculador, se ele se permitir, uma vasta fonte de informações para observação e conhecimento a respeito da pessoa que está se consultando, o qual chamamos de consulente. Cabe ao cartomante conduzir a consulta de forma a orientar o consulente a enxergar-se também, como produto do meio, e não vitimar-se, como é comum a todos que tem problemas para resolver. O baralho fornece, no momento do jogo, informações precisas a respeito do consulente e/ou da situação apresentada, indicando possíveis causas ou origens, e pode acontecer que, a fonte do problema seja o próprio consulente: Seus medos, suas atitudes infantis ou até a sua própria personalidade.
 Neste sentido, vejo o homem como o objeto de estudo central do jogo, e não a situação problema que ele apresenta. Muitos são os anseios, e muitas são as dúvidas de ambas as partes, mas é preciso saber filtrar as pessoas, logo no primeiro contato. Pode haver pessoas que estão interessadas em testar a ‘vidência’ –porque acreditam que cartomantes são adivinhos- e fornecer informações falsas a seu respeito para vê se você é um cartomante sério. Por isso, é importante fazer com que o consulente apresente elementos que vão basear a consulta, e nortear o cartomante quanto às possíveis combinações que o jogo vai apresentar. Não julgo ser incorreto ou amoral questionar o consulente quanto ao seu problema com perguntas objetivas: - Porque decidiu consultar as cartas? –Você é casado(a)? –Você tem filhos (as)? Munido dessas respostas, antes de abrir o jogo, fica muito mais fácil saber quem são aquelas pessoas (se o método apresentar pessoas) que estão rodeando a vida daquele consulente!
E para você, o que é ser cartomante?
Discutiremos isso no próximo Post.
Beijos, e até lá.
Kêu Salvador.